27 de mai de 2013

[Entrevista] Luís Francisco


O mais jovem desenhista gráfico de jogos do Brasil

Por Arnaldo Carvalho

Em 2009, com apenas 21 anos, Luís Francisco finalizou sua graduação em Design Gráfico com a criação de Mehinaku, título que seria publicado dois anos depois pela Toia, e se tornava o designer gráfico de jogos mais jovem a ter um título publicado por um fabricante oficial. De lá para cá, o talentoso artista gráfico aproximou-se de vez do mundo dos jogos e iniciou uma carreira exponencial. É hoje o designer gráfico oficial de empresas internacionais como Indie Boards and Cards, Robert Burke Games, e recentemente assinou com a Funbox Jogos. 
 
Pela empresa brasileira, Luís está agora prestes a ver lançado seu segundo jogo de autoria, o Cook-off. O título, leve e festivo, é ideal para se jogar em família ou entre amigos, no bar ou na praia, e como o Mehinaku, foi criado entre seus experimentos acadêmicos. 

Nessa entrevista exclusiva para o Desbussolados, o autor nos conta sobre essa trajetória astronômica enquanto designer gráfico, como surgiram seus jogos de autoria e os jogos e projetos gráficos em que atuou. 

Pelo que dá para sentir, o mundo dos jogos de tabuleiro ainda vai ouvir muito falar do trabalho de Luís Francisco.

DB. Quando você começou a se interessar pelos jogos de tabuleiro?
Luís Francisco - Sempre gostei mas ficava sempre em segundo plano. Foi com a ideia de fazer um jogo como tema de Trabalho de Conclusão de curso da faculdade que resolvi me aprofundar mais e conheci o universo além dos jogos de mercado de massa que a maioria dos brasileiros conhecem.

DB. E a bolar jogos?
Luís Francisco - Conceitualmente falando durante meu TCC com o Mehinaku. Mecanicamente falando durante a aula de Game Design em Vancouver com o Cook-off.



DB. Como assim aula de game design em Vancouver? Conta pra gente sobre isso.
Luís Francisco - Após me formar em design gráfico fui fazer uma extensão em design digital no Canadá. Lá tive aula básica de Game Design e o Cook-off surgiu como trabalho pra aula.

DB. Qual foi a primeira idéia de jogo que você teve? Foi a frente?
Luís Francisco - Era um card game bem básico que tinha uns furos, e você colocava sua carta sobre a do adversário pra resolver os ataques e defesa.
Argh… não! Eu era bem mais novo e não tinha conhecimento nenhum de mecânicas e balanceamento de jogos. Resumindo? Era horrível!


DB. Como foi que começaram a surgir contatos para trabalho nas empresas estrangeiras?

Luís Francisco - Os contatos surgiram meio que espontaneamente... o Travis da Indie Boards and Cards viu
um post no BGG em que eu mostrava o andamento do meu TCC e veio falar comigo. Logo após terminar meu TCC eu também já estava terminando o meu primeiro jogo comercial, o Triumvirate. Depois do Triumvirate vieram todos os outros jogos da Indie. Com a Robert Burke foi um pouco diferente. Eu vi uma postagem dele sobre o jogo que ele estava criando, onde ele perguntava o que achavam da caixa que ele estava fazendo. Achei a proposta do jogo legal, mas a caixa não chamava atenção; então meio de brincadeira fiz uma imagem e postei lá como eu achava que podia ficar. No dia seguinte estava recebendo uma mensagem perguntando quanto eu cobrava pra fazer o design gráfico do jogo inteiro!

DB – Quais são os títulos mais badalados em que você atuou?

Luís Francisco - Os jogos da Indie Boards and Cards que trabalhei são os de maior sucesso e os mais conhecidos. Liderei o design gráfico em todos esses jogos. Flash Point e principalmente o The Resistance são os mais badalados. Para mim é um orgulho poder trabalhar em tantos títulos que fizeram sucesso. O The Resistance já teve até vídeo no TableTop e é um dos jogos favoritos do Wil Wheaton!

DB - Quando você pega o projeto gráfico de um jogo já dá para sacar que vai ser sucesso?

Luís Francisco - Não! Já me surpreendi com isso... O Gauntlet of Fools da Indie Boards and Cards por exemplo, que é do Donald X. Vaccarino (criador de Dominion), tinha tudo pra ser um sucesso e o que mais recebeu foi crítica! Eu gosto do jogo, mas acho que por ele ser muito dependente de sorte e não ter tanta interação entre os jogadores, foi crucificado pela comunidade no BGG.

DB. Acredita ser possível viver de desenhar jogos?
Luís Francisco - Não! Não aqui no Brasil, muito dificilmente nos EUA, quem sabe na Europa, mas talvez apenas na Alemanha.

DB - E de design gráfico de jogos? A realidade é a mesma?

Luís Francisco - Um pouco melhor... Mas ainda acho muito difícil. Na verdade pego estes trabalhos por que eu gosto e serve pra aliviar um pouco a cabeça do meu trabalho de verdade. É meio que unir o útil ao agradável, tanto que geralmente eu cobro um pouco abaixo do que geralmente cobraria por outros projetos, e sempre deixo claro que quero cópia dos jogos assim que publicados.

DB. Quais os seus jogos favoritos, e quais são as características que lhe atraem neles?
Luís Francisco - Meus jogos favoritos são os de Work Placement. Até hoje não houve nenhum jogo de Work Placement que eu joguei que não tenha me agradado. Gosto muito da ideia de ter que criar minha estratégia e ao mesmo tempo prever e antecipar as jogadas do meu adversário.

DB. Você participou na escolha dos artistas dos seus jogos? Como é feita essa parceria designer-artista?
Luís Francisco - Dos meus jogos sim. Dos muitos jogos nos quais trabalhei como designer gráfico não. O designer é geralmente responsável pelo que chamamos de direção de arte. Ele cria a ambientação dos jogos e vai guiando o(s) ilustrador(es) para que a arte esteja de acordo com aquilo que ele tem em mente. No Mehinaku por ser mais complexo que o Cook-off meu papel como designer foi essencial para orientar o ilustrador, no caso o meu amigo Pedro Vergani. Eu tinha que ir fornecendo e meio que ir educando ele durante todo o trabalho sobre o universo visual indígena que eu ia descobrindo com a pesquisa do meu TCC. Agora, quando eu faço trabalho pra jogos internacionais geralmente a empresa já fornece o ilustrador, então eu tenho meio que trabalhar a partir do estilo escolhido.

DB. Podemos esperar por outros jogos para breve? Algum em fase de testes? O que há em sua prancheta?
Luís Francisco - Estou dando um tempo na criação de jogos. Mas não vou mentir que não tenho nada na minha "prancheta". Tenho uma ideia de criar uma versão "express" de dados do Mehinaku! Além, é claro, de uma possível expansão pro Cook-off!

DB. Sabemos que seu Mehinaku, fruto do trabalho de conclusão de curso de sua graduação em Design Gráfico, foi publicado pela Toia em 2011 sem que fosse firmado qualquer contrato ou acordo. Pretende fazer algo? Há alguma novidade em relação a isso? Independente do ocorrido, como foi a sensação de ver seu jogo no mercado?
Luís Francisco - Pretendo sim, estou aguardando algumas coisas se concluírem e aí tomarei algumas providências. Quanto a sensação… Eu não cheguei a ver! Estava no Canadá na época, e quando eu voltei já tinha mandado retirar do mercado o jogo.

DB. Com o que você entende de jogos hoje, faria o Mehinaku de novo da mesma maneira?
Luís Francisco - Mudaria alguns detalhes, mas a essência acho que seria a mesma.

DB. O Mehinaku foi co-assinado pelo game designer Antonio Marcelo. Como vocês se conheceram e qual foi o papel dele na concepção do jogo?

Luís Francisco - O Antonio Marcelo eu conheci na Ilha do Tabuleiro, quando eu estava começando meu TCC. Com sua experiência ele transformou idéias conceituais em mecânicas funcionais e assim tudo se ajustou.

DB. Do Mehinaku para o Cook-off e os tempos atuais, você mudou seu estilo de criação?
Aprendeu ou percebeu coisas novas? Amadureceu profissionalmente? Fale um pouco sobre isso?
Luís Francisco - Sim. No Mehinaku eu era um designer mais conceitual. Eu criava as ideias e possibilidades enquanto o Antonio Marcelo desenvolvia as mecânicas e as balanceava. O Cook-off é então o primeiro no qual todo o desenvolvimento do jogo em si foi feito exclusivamente por mim. Desde a conceituação até o balanceamento. Aprendi a ouvir os jogadores, e portanto, é claro que não posso deixar de lado os inúmeros feedbacks gerados nos playtests que agregaram bastante ao jogo.

DB. Como surgiu a idéia do Cook-off e como ela surgiu a parceria com a Funbox?
Luís Francisco - Depois de terminar o curso no Canadá, continuei investindo no Cook-off, e ao ficar sabendo que a Funbox estava querendo publicar jogos fui conversar com a nossa queridíssima Vanessa. Ela jogou, gostou, acreditou que o Cook-off tinha potencial e aí resolveu investir nele como seu primeiro jogo a ser publicado.

DB. Qual é o seu personagem favorito no Cook-off? Algum foi inspirado especialmente em alguém real?
Luís Francisco - Putz! Amo todos… O Marcelo Bissoli mandou muito bem e conseguiu realmente fazer os personagens como eu queria: engraçados por si só. É meio que perguntar pros pais qual o filho favorito, né?! Mas é claro que tem sempre aqueles que se sobressaem… eu tenho um carinho especial pelo Don Giuseppe di Bruschetta (Italiano) e seu capanga hehehe O próprio Don Giuseppe é inspirado no famoso personagem Don Corleone. O Marcelo disse que o Nuno Pereira (Português) foi inspirado em um açougueiro que ele conheceu, mas todos os personagem foram pensados com as mais diversas inspirações. No François au Lait (Francês), por exemplo, eu tive a ideia de fazer um desses mímicos franceses mas pra diferenciá-lo quis que ele fosse fã da banda Kiss e que sua pintura facial fosse inspirada na do Paul Stanley! E não podemos esquecer do personagem especialíssimo e exclusivo da pré-venda: a Mirinha e o Binho! Que foram inspirados na vó mais famosa dos programas de culinária da TV brasileira e seu fantoche…

DB. Há alguma curiosidade acerca da criação do jogo?
Luís Francisco - Sempre que fazia playtests as pessoas perguntavam: Mas tem receitas? Eis que resolvemos inventar receitas. FOI UM FRACASSO!
O jogo ficou chato demais, travado e perdeu a parte mais legal… As sabotagens! Todos ficavam preocupados em cumprir metas e por fim descartamos a ideia e optamos por continuar com o time que está ganhando.

DB. O que espera do Cook-off?
Luís Francisco - Eu digo que o meu desejo é que o Cook-Off se torne "O" filler nacional.

DB. Como tem sido a recepção do jogo?
Luís Francisco - Muito boa! Quem joga adora e quer comprar! O difícil é fazer as pessoas jogarem a primeira vez. Ainda existe muito preconceito com jogos brasileiros, e ainda mais se tratando de um autor novo no mercado.

DB. Os resultados do financiamento coletivo te surpreendem?
Luís Francisco - Sim, esperava um pouco mais. Mas compreendo, o Cook-off é um jogo que tem que ser jogado. É difícil explicar sua diversão… Tem que vivenciar!
Mas tenho certeza que assim que o jogo for pra mesa das pessoas e sairem os reviews por aí vamos vender muito mais cópias.
Fiquei surpreso também que pouquíssimas pessoas escolheram a versão Print&Play, mesmo tendo a oportunidade de resgatar 10 reais na hora de comprar o jogo físico, e que quase ninguém doou um valor baixo apenas por doar. Pelo jeito as pessoas preferem não colaborar do que dar 1 ou 5 reais. Vai entender...

DB. Há alguma inovação mecânica? Qual é o ponto forte do Cook-off em termos de originalidade e mecânica?
Luís Francisco - Coco Chanel (Sim, a estilista!) certa vez disse: "Inovação!? Não se pode ser inovador para sempre. Eu quero criar clássicos."
Acho que esse é o pensamento que se deve ter ao criar jogos. Um jogo pode ser inovador e acabar por ficar encostado depois de poucas partidas, enquanto outros jogos não tão inovadores viram clássicos e estão sempre presentes nas jogatinas. Cook-off usa mecânicas simples e a sorte está presente — mesmo que em pouca quantidade — mas é controlável. A mecânica principal é a de ações programáveis e o fato de você poder trocar sua segunda pela terceira ação antes de resolvê-las trás a estratégia sobrepondo a sorte no jogo.

DB. Dá para comparar o Cook-off com um jogo importado (qualidade da arte, regras, componentes, etc.)?
Luís Francisco - Dá! E temos que valorizar cada vez mais o produto nacional. A Funbox veio com a premissa e a vontade de fazer jogos de qualidade internacional pra incentivar nosso mercado. Primeiro que é uma empresa difícil de agradar e tem selecionado muito bem o que publicar. Segundo que a Vanessa é apaixonada por jogos (ela até conversa com eles, mas não conta pra ninguém…) e assim como eu, estava cansada de ver tantas promessas e poucas realizações. Então, se tem algo que ela quer, é fazer um produto nacional que possa dizer com orgulho que foi ela que fez e que tem padrão internacional.

DB. Há espaço para novos designers?
Luís Francisco - Sempre há… Mas falta é vontade das editoras de abraçá-los. Hoje no mercado basicamente temos apenas três editoras dispostas a publicar jogos de autores brasileiros: Funbox Jogos, Hydra Games e Ceilikan. É o que venho dizendo… infelizmente a Galápagos está apenas dedicada aos jogos internacionais e até onde eu sei o Macri apenas publicará seus próprios jogos na MS Jogos.

DB. O que falta para o mercado brasileiro, e para os jogos nacionais conquistarem o mercado?
Luís Francisco - Falta compromisso com a qualidade de produção, preços mais acessíveis e menos preconceito dos brasileiros.

DB. Que peso tem sua formação quando você se vê no mundo dos jogos?
Luís Francisco - A minha formação na verdade às vezes joga contra. Ser design gráfico me afasta um pouco de muitos jogos que às vezes tem um péssimo visual mas uma ótima jogabilidade. É impossível, pra mim, avaliar um jogo sem levar em conta sua arte. A não ser é claro quando o jogo é abstrato, que por incrível que pareça é um estilo do qual eu gosto bastante. Mas independente de estar jogando ou criando um jogo, assim que eu tenho uma temática, e inevitável ilustrar mentalmente todo o universo visual daquele jogo, o que pode até mesmo vir a modificar uma mecânica.


DB. Qual é o jogo que ainda está para ser inventado?
Luís Francisco - Olha, depois de ver o Emperor's New Clothes ser financiado no Kickstarter, acho que nenhum! Hahahahaha


Rápidas

Idade: 24 anos

Apelido de infância: Luizinho, Luiba...

Formação: Designer Gráfico com extensão em Design Digital

Jogos preferidos de autores estrangeiros: Cuba, Hive e Dixit.

Jogos preferidos de autores nacionais: Hart an der Grenze (Jogo da Fronteira) e Nzogak: A Fuga da Montanha de Cristal (Jogo cooperativo do Lucas Pereira que ainda está por vir)

Jogos preferidos (próprios): The Cook-off!

Top 5 geral: Argh! sempre evito fazer esses Tops X... Hoje seria:

1. Cuba
2. Hive
3. Dixit
4. The Resistance
5. Dominion

Ludografia (como designer gráfico; N = jogo nacional)

Wheels of Time
Mehinaku (N)
Triumvirate
The Resistance
Colonial (N)
Haggis
Flash Point: Fire Rescue
The Resistance: Avalon         
Gauntlet of Fools
Flash Point: Fire Rescue - Urban Structures
Cartoona
Cartoona: Heads on Tails
Cartoona: Long Necks
Flash Point: Fire Rescue - 2nd Story
Gnomes: The Great Sweeping of Ammowan
ForTheWin (iOS)
Battle For Souls
Flash Point: Fire Rescue - Extreme Danger
The Resistance: COUP
The Cook-off (N)
Flash Point: Fire Rescue - Dangerous Waters

6 comentários:

  1. Parabéns Luis!! Ótima entrevista do pessoal do Desbussolados! Esperando o Cook-Off! rs. Abração!

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  2. Excelente! Parabéns ao Arnaldo, pela entrevista, ao Luis pelos jogos (e ao Marcelo e a Vanessa também!). E que venham mais jogos, e que os meus venham com autografos e marcas de batom :) (olha eu ali atras conversando com o Massaoka, rs)

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  3. Ótima entrevista.... parabéns, Luis... e continue com o excelente trabalho... :D

    Ahhh... e olha a foto quando, finalmente, consegui minha cópia do Mehinaku ali... \o/

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  4. Por favor, corrija a idade do Luis Francisco. Ele nasceu em 1988, graduou-se com em Design Gráfico com 21 anos portanto.

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