27 de abr de 2013

[Entrevista] Vanessa Santos - Funbox

Por Arnaldo V. Carvalho

DB: Como surgiu a idéia da FUNBOX?
Vanessa Santos - Eu morava nos EUA e todas as vezes que vinha para o Brasil pediam para a gente [Vanessa e Wagner] levar muitos jogos. Nós mesmos tínhamos uma coleção enorme, eram quatrocentos e tantos jogos. Não tinha parede na casa para tantos... Aí falei pro Wagner na época, “Por que a gente não abre uma locadora”?  Jogos de tabuleiro importados são tão caros no Brasil, e assim os títulos ficam disponíveis. Quase ninguém tinha os jogos, mas  queriam jogar antes, para conhecer e eventualmente comprar. O Wagner gostou da idéia, e como tudo o que fazíamos, começamos a fazer uma listinha e colocar a idéia no papel. Surgiu o projeto da “Fundelivery”: inicialmente a idéia era alugar online e entregar e buscar por sistema delivery. Mas a idéia nos EUA não daria certo, porque jogo lá é muito barato. Então vim para o Brasil para estudar as possibilidades, e vi que na época (2009) não funcionaria o esquema de delivery, e assim o nome Fundelivery não caberia mais. Então fazendo uma pesquisa entre gamers, vimos que o segundo termo que as pessoas mais tinha em mente ao pensar nos jogos era Box, caixa. Aí gente resolveu virar FUNBOX. E foi assim que voltei ao Brasil para abrir a FUNBOX.

DB – Então a idéia original é sua e do Wagner?
Vanessa Santos - O Alexandre estava com a gente desde a Fundelivery. Aí começamos com a Funbox, ele tinha outros projetos e achou que não ia combinar, então saiu após alguns meses de abrirmos, e ficamos eu e Wagner.  Atualmente, o Wagner saiu e hoje toco a Funbox sozinha.

DB - Deu medo ficar sozinha?
Vanessa Santos - No começo eu trabalhava fora para manter a Funbox e o Wagner era o único que ganhava algum prolabore. Mas em 2012 eu tive que trabalhar e tocar a Funbox ao mesmo tempo, e isso foi bastante complicado. Em abril daquele ano cheguei a trabalhar 16-18H por dia e depois ainda ter que cuidar da loja. Então, em setembro, precisei reduzir meu trabalho para meio período, e assim foi até dezembro quando pedi as contas. Durante o período em que precisei trabalhar e tocar a Funbox ao mesmo tempo sozinha houve uma queda grande. 

DB - E a Funbox mudou muito de lá para cá?
Vanessa Santos - A FUNBOX já era muito do jeito que é hoje. Em termos de atendimento não é muita coisa. O que mudou é que agora também somos editora, e mudamos estruturalmente. O atendimento segue o mesmo. 

DB – Vocês chegaram a construir algum tipo de relação com editoras de jogos, etc.?
Vanessa Santos - No começo da FUNBOX fomos conversar com as fabricantes nacionais como a Grow, Estrela, etc. para contar que estávamos abrindo. A Grow mandou jogos para a gente, ela sempre nos apoia. A Estrela também chegou a mandar alguns produtos como parceira. Para a gente é sempre bom estar perto delas, e para elas somos uma importante fonte de feedbacks acerca dos títulos que produzem.

DB – E a Funbox já se mantem ? Já é lucrativa?
Vanessa Santos - A Funbox se mantém e cresce  fazendo as coisas com calma. Temos projetos, a editora saiu. Tudo o que fazemos é de forma cuidadosa. Nesse ano vamos consolidar a Funbox Jogos, começando pelo Cook-Off.

DB – O que a Funbox representa para o cenário dos jogos de tabuleiro no Brasil?
Vanessa Santos - Desde o princípio, nosso objetivo é difundir os jogos de tabuleiro. Queremos fazer com que eles possam ser mais acessados, divulgar para quem ainda não conhece, e ajudar a criar esse mercado que até dois, três anos atrás era bem diferente. Então a gente começou com a locadora trazendo jogos mais acessíveis e agora trazemos a editora. Além disso, sempre fazemos palestras em faculdades, pós-graduações de jogos, etc.  O objetivo sempre é mostrar o que é esse universo, o qual a maioria das pessoas não tem idéia de que existe estamos aqui como uma força a mais para fortalecer o mercado.

DB – Como é alugar um jogo? Os jogos são devolvidos sempre bem? Como é isso?
Vanessa Santos - Nossos associados tratam muito bem os jogos, não costumamos ter problemas. Claro que já tivemos  ocasiões em que faltaram peças, mas de uma forma geral eles são  cuidadosos. Essa questão [do cuidado] fez com que a gente prefira trabalhar com adultos. Criança por exemplo não pode jogar na loja, e para levar para casa exigimos que a pessoa seja maior de idade. De qualquer forma, a maioria dos nossos jogos são em inglês e isso também forma um perfil de usuário mais restrito aos adultos. Mas o mais importante é que, quando as pessoas entram aqui são tratadas como amigos, assim como você foi. E dessa forma elas correspondem. Já não levam simplesmente um jogo da Funbox, mas dos seus amigos.

DB – Os gamers freqüentam muito a loja?
Vanessa Santos - A gente queria que o pessoal viesse mais. Gamer mesmo vem pouco. Eles já tem muitos
jogos, então para eles não interessa muito. A gente quer fazer campeonatos aqui. Acho que vai dar certo.

DB - Qual é o jogo campeão de mesa da Funbox?
Vanessa Santos - Depende do período. Havia momento momentos que nossas cinco cópias do  Arkham Horror não davam conta. Os cooperativos de maneira geral fazem muito sucesso, até porque é novidade entre os brasileiros. “Como assim todo mundo contra o tabuleiro?” (risos) . Pandemic é sempre um jogo bem cotado.

DB - As pessoas preferem jogar na loja ou levar para jogar em casa?
Vanessa Santos - Quando abrimos achamos que ia ter muito mais gente para levar para casa. Mas tem muita gente que gosta muito de jogar aqui, e passa o dia inteiro.

DB - O Crowd Funding criado para o lançamento do Cook-off está atendendo as expectativas?
Vanessa Santos - Não. Mas isso não importa, mesmo que o financiamento coletivo não atinja o montante proposto, vamos bancar o jogo e quem comprou vai receber normalmente.

DB – O Mat (tabuleiro individual) da Mirinha é um item promocional do Cook-off bem bolado e divertido, e parece que será exclusivo do financiamento coletivo. Quando a gente olha para ela, logo associamos com uma certa cozinheira famosa da TV… É isso mesmo? Como surgiu essa idéia?
Vanessa Santos - Tinhamos ido ver as peças plásticas que fazem parte do jogo. No caminho, passamos por uma revista na banca com Tia Palmirinha. Comentei com os meninos: “Sabe o que seria legal? Poderíamos homenagea-la e brincar com isso no Cook-off”. Então o Luís Francisco (designer do jogo) sugeriu: por que não fazemos um mat com ela”? Daí pedimos ao Marcelo (artista do jogo) um esboço dessa personagem exclusiva do Cook-off, ficou ótimo e surgiu a nossa “Mirinha”. Um dia descobrimos um vídeo onde o boneco da Palmirinha a ajudava a lembrar da palavra “faca”. Achamos bem engraçado, e esse detalhe completou o desenho que foi pro Tabuleiro individual.

DB - Quando o jogo será lançado?
Vanessa Santos - O financiamento termina no fim de abril, em maio a gente entra produção e em junho já estará sendo vendido, um pouco mais caro que o valor durante o período do Crowd Funding.

DB: Você  se considera gamer?
Vanessa Santos – Com o tanto que já joguei e tanto que jogo, sou sim.

DB – E dá tempo de jogar? Qual é o seu jogo preferido?
Vanessa Santos - Tenho tempo, a gente sempre arruma tempo para jogar. É comum chegar alguém aqui querendo jogar sem outras pessoas, aí a gente faz o “sacrifício” de jogar com eles, rs. Meu jogo preferido hoje é o Caylus.

DB – Pode nos contar sobre algum momento especial que tenha vivido na FUNBOX?
Vanessa Santos - Um momento que me marcou bastante foi um pouco antes de abrir a FUNBOX. Eu trabalhava fora mas havia participado da primeira parte das obras de loja, montando prateleiras, etc.  Por causa do trabalho fiquei três dias sem ir e o Wagner falou “vamos lá”, mas sem me dizer que estava tudo pronto. Quando vi tudo montado, a Funbox completamente pronta para abrir foi realmente realizador. E agora sinto que uma emoção forte assim vem aí, quando lançarmos o Cook-off.

***

Arnaldo “Arnie” Carvalho, 37 anos, é terapeuta e boardgamer, criador do Niterói das Peças.

Um comentário:

  1. Bela entrevista. Guerreira, a Vanessa. Trabalhar com jogos no Brasil é para poucos.

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