28 de abr de 2013

[ENTREVISTA] Alex Bykov - Bandai

O canivete suíço da Bandai

O versátil game designer Alex Bykov fala sobre 
Star Trek: The Original Series Building Deck Game 
e sua trajetória na Bandai 


Por Arnaldo V. Carvalho

O perfil de um game designer é o de trabalhar de forma independente ou Freelance. Alex Bykov é diferente. Ele é um funcionário contratado, e trabalha exclusivamente para a divisão de card games da Bandai - a terceira maior fabricante de brinquedos do mundo. Onde ela decide investir, lá está ele, o canivete suíço, com suas ideias e trabalho duro. Bykov mostra, nessa entrevista, e sua fala sempre no "nós", que veste a camisa, sabe trabalhar em equipe e jogar para o time. Sem dúvida, vemos aqui uma maneira peculiar de criar jogos, em relação ao que se vê no mundo dos jogos de cartas e tabuleiro modernos. Conheça mais sobre esse interessante processo de criação, e descubra detalhes exclusivos sobre Star Trek: The Original Series BDG e a personalidade do designer por trás do jogo. Com vocês, Alex Bykov!



DB) Trekker, certo?
Surpreendentemente eu nunca me interessei por Star Trek quando fui selecionado para desenhar este jogo. Desde então eu assisti todos os files e vários episódios do seriado, para ajudar-me a entender o ambiente, e desde então eu curti a beça. Felizmente um de meus colaboradores e amigos é um super Trekkie então ele me ajudou muito a dar o sabor do jogo e garantir que ele seria amado pelos Trekkies.  

DB) De onde surgiu a ideia da criação do jogo?

Bykov - Estávamos buscando por uma grande marca que estivesse disponível e então nos deparamos com Star Trek. Um de nossos designers era um grande fã do Star Trek então ele deu o empurrão para isso. Uma vez que nós decidimos pelo Star Trek então todos nós começamos a desenhar nossas próprias ideias a respeito de como o jogo deveria se parecer, e a minha foi escolhida tanto internamente como por testadores externos. Ela evoluiu a partir daí. 
DB) Um dos aspectos mais satisfatórios em Star Trek: TOS BD é o cuidado que foi tomado para tornar cada carta temática em seus efeitos, o que é aparente aos fãs da série. Conte para a gente sobre o processo de design por trás desse aspecto. Por exemplo, você tomava notas enquanto assistia os episódios de TOS com a intenção de criar cada uma das cartas?
Bykov - Uma vez que decidíamos o que ou quem estaria numa carta, então pesquisávamos sobre ela nos episódios e online, e então decidíamos que texto encaixaria melhor na carta e bateria com o tema.  

DB) E quanto as estatísticas e escolha de que personagens secundários entrariam? 
Bykov - As estatísticas foram balanceadas de acordo com o tempero (características) do personagem bem como os temas que nós queriamos que existissem no jogo. Os personagens secundários foram escolhidos de acordo com sua popularidade na série, bem como sua presença (participação). Como alguns dos personagens que nós inicialmente queríamos não estariam disponíveis para o jogo, nós tentamos dar nosso melhor para incluir tantos personagens conhecidos como pudessemos. 

DB) Trazer velhos inimigos numa mesma ponte de comando. Esse tipo de contradição temática pode ter representado um problema no momento do design? Conte para nós sobre possíveis conflitos tema x mecânica que você encontrou no processo de criação.  

Bykov - Star Trek não é uma série simples, ela é bastante profunda então nós quisemos um pouco dessa complexidade no jogo. Nós queríamos que o jogo representasse esse aspecto apropriadamente; todavia, é um jogo e ele não pode ser tão complexo ao ponto de assustar novos jogadores. Enquanto nós considerávamos fazer mais regras para manter as pontes do Show equiparadas ao que você poderia assistir na TV, nós decidimos que o jogo interpreta o show mais do que simplesmente replica os eventos da série. Então, enquanto Kirk e Khan podem nunca ter trabalhado juntos na série, nas situações mais extremas poderíamos imaginar que eles poderiam possivelmente trabalhar juntos se um mal maior surgisse. 
  
Enfim, nós decidimos que seria ok nos movermos além dos limites do seriado, e imaginar que algumas coisas poderiam acontecer mesmo que não tivessem sido retratadas nos episódios. Tivemos ideias sobre como restringir personagens para não misturar com outros personagens incomumente casáveis mas nós sentimos que isso ia ser muito complicado e criaria um monte de regras e restrições sobre quem pode estar com quem. 

DB) Pike e Number One não são personagens da tripulação regular de Star Trek, sendo de uma geração anterior substituida por Kirk, Spock e Cia. Eles estavam planejados para ser parte das cartas desde que o projeto do jogo começou?

Bykov - Sim, nós quisemos incluí-los porque eles foram os primeiros e sentimos que nós deveríamos tentar representa-los no jogo. Eles podem não ser os mais queridos, mas se não fosse por eles, então o show talvez não existisse. 
DB) Você conhece alguem que coloca Palmer (a carta do personagem) em seu deck? 
Bykov - Nem sempre ela vai ser a escolha número um, mas as vezes você tem que dar aos personagens uma chance e eles podem surpreender você. 
DB) QUal é a versão favorita dos Star Trek Building Deck que vocês já produziram?

Bykov - Eu gosto do primeiro jogo lançado, The Next Generation Premiere Edition. Eu sempre amei o Cenário Borg nesse jogo e o fato de haver três grandes maneiras de se jogar. 
DB) Há algum tipo de expansão a caminho? Se sim, ela vai incluir apenas novos personagens e missões ou também novas variações do jogo como a das infecções encontradas no core set?"
Bykov - Não temos nada anunciado até aqui. 

Bykov ao centro com a equipe Bandai
DB) Você trabalha exclusivamente para a Bandai? Conte um pouco para a gente sobre a companhia, sua história e sua relação com ela. 

Bykov - Sim, atualmente trabalho exclusivamente na Bandai. Eu comecei na Bandai como um tester com o Dragonball CCG porque eu era fanático pelo Dragonball. Meu papel depois cresceu para My role later increase to R&D onde eu me envolvi com Naruto CCG, Battle Spirits TCG, e outros projetos de cartas. Eu fiquei muito empolgado em mover para o campo dos  Card/Board Game quando nós decidimos desenvolver esses jogos. Eu ajudei com o Resident Evil DBG e quando chegou o momento de fazer um Star Trek DBG, eu tive sorte suficiente de ter meu design selecionado. Desde então eu tenho trabalhado em todos os Star Trek DBG’s, bem como dado minha colaboração em nossos outros projetos R&D. Eu vim com um histórico em ciência da computação, então eu também tomei papel como líder em vários dos websites e páginas em redes sociais que nós temos para nossos jogos. Eu estou na Bandai há quatro anos e estou feliz com o quão longe já fui. 
DB) Quanto tempo levou na fase de teste?
Bykov - Nós testamos o jogo por vários meses dentro de casa e tinhamos alguns grupos de teste em outros estados experimentando o jogo nesse mesmo tempo.
DB) Quem foi o responsável pela arte do jogo? Você teve alguma interferência nessa área? 
Bykov - Para as cartas em si, nós escolhemos a arte dos episódios da TV, e temos um designer gráfico fantástico que criou as cartas a partir daí e desenvolveu a caixa e o manual inspirado no estilo dos guias de Star Trek. 
DB) Os compradores do jogo são compostos principalmente de gamers, trekkers ou o que? Isso corresponde com suas expectativas? 

Bykov - Muitos consumidores tem algum amor por Star Trek mas o jogo é desenhado para ser curtido por qualquer um que simplesmente curta jogos de tabuleiro. 
DB) Você se apresenta no site da Bandai com a frase: "o canivete suíço dos empregados, pia da cozinha e tudo mais". Você pode nos contar mais sobre isso?

Bykov  - Eu amo aprender novas habilidades e tentar a minha mão em qualquer coisa que surja no meu caminho.  Eu gosto de pensar que posso me adaptar a qualquer situação e consertar qualquer problemas que encontramos. 

DB) "Bykov". Você tem a mesma origem russa do Chekov? Algum carinho especial pelo personagem? :)

Bykov - Sim, venho de uma família de origem russa, então eu compartilho isso com Chekov. Mas eu não tenho aquele acento maneiro que ele tem. 
DB) Você já conhece o Brasil? Qual é a sua impressão?
Bykov - Eu não posso dizer que conheço muito do Brasil, mas fico muito feliz de saber que meu jogo está indo tão longe e há por aí fãs que gostam do jogo tanto quanto eu. 

DB) Então mande uma mensagem para nossa comunidade e todos os seus fãs no Brasil! 

Bykov - Só quero agradecer a todos que curtiram os Star Trek Deck Building Games, eu realmente torço que tenha feito algo que traga diversão as pessoas que os joguem. Obrigado por apoiar o jogo. 
Rápidas
Nome completo: Alex Bykov
Idade: 28
Apelido de infância: Goku (contudo ninguém de verdade me chamava assim, mas eu mesmo sim!)
Jogo favorito (criação própria) : Star Trek TNG Premiere
Jogo favorito (em geral): Eu curto o Carcassone no meu telefone.
Comida favorita: Jamba Juice Smoothie
Personagem Star Trek favorito: Kirk
Carta favorite do Star Trek: TOS DBC: Spock do mal
Alex Bykov ST_TOS Building Deck Card: (coloque aqui as estatísticas e o efeito se você fosse uma carta de personagem do jogo!):  10 | 10 | 10 | 10  - Sou invencível! 



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Arnaldo “Arnie” Carvalho, 37 anos, é terapeuta e boardgamer, criador do Niterói das Peças. 

27 de abr de 2013

[Entrevista] Vanessa Santos - Funbox

Por Arnaldo V. Carvalho

DB: Como surgiu a idéia da FUNBOX?
Vanessa Santos - Eu morava nos EUA e todas as vezes que vinha para o Brasil pediam para a gente [Vanessa e Wagner] levar muitos jogos. Nós mesmos tínhamos uma coleção enorme, eram quatrocentos e tantos jogos. Não tinha parede na casa para tantos... Aí falei pro Wagner na época, “Por que a gente não abre uma locadora”?  Jogos de tabuleiro importados são tão caros no Brasil, e assim os títulos ficam disponíveis. Quase ninguém tinha os jogos, mas  queriam jogar antes, para conhecer e eventualmente comprar. O Wagner gostou da idéia, e como tudo o que fazíamos, começamos a fazer uma listinha e colocar a idéia no papel. Surgiu o projeto da “Fundelivery”: inicialmente a idéia era alugar online e entregar e buscar por sistema delivery. Mas a idéia nos EUA não daria certo, porque jogo lá é muito barato. Então vim para o Brasil para estudar as possibilidades, e vi que na época (2009) não funcionaria o esquema de delivery, e assim o nome Fundelivery não caberia mais. Então fazendo uma pesquisa entre gamers, vimos que o segundo termo que as pessoas mais tinha em mente ao pensar nos jogos era Box, caixa. Aí gente resolveu virar FUNBOX. E foi assim que voltei ao Brasil para abrir a FUNBOX.

DB – Então a idéia original é sua e do Wagner?
Vanessa Santos - O Alexandre estava com a gente desde a Fundelivery. Aí começamos com a Funbox, ele tinha outros projetos e achou que não ia combinar, então saiu após alguns meses de abrirmos, e ficamos eu e Wagner.  Atualmente, o Wagner saiu e hoje toco a Funbox sozinha.

DB - Deu medo ficar sozinha?
Vanessa Santos - No começo eu trabalhava fora para manter a Funbox e o Wagner era o único que ganhava algum prolabore. Mas em 2012 eu tive que trabalhar e tocar a Funbox ao mesmo tempo, e isso foi bastante complicado. Em abril daquele ano cheguei a trabalhar 16-18H por dia e depois ainda ter que cuidar da loja. Então, em setembro, precisei reduzir meu trabalho para meio período, e assim foi até dezembro quando pedi as contas. Durante o período em que precisei trabalhar e tocar a Funbox ao mesmo tempo sozinha houve uma queda grande. 

DB - E a Funbox mudou muito de lá para cá?
Vanessa Santos - A FUNBOX já era muito do jeito que é hoje. Em termos de atendimento não é muita coisa. O que mudou é que agora também somos editora, e mudamos estruturalmente. O atendimento segue o mesmo. 

DB – Vocês chegaram a construir algum tipo de relação com editoras de jogos, etc.?
Vanessa Santos - No começo da FUNBOX fomos conversar com as fabricantes nacionais como a Grow, Estrela, etc. para contar que estávamos abrindo. A Grow mandou jogos para a gente, ela sempre nos apoia. A Estrela também chegou a mandar alguns produtos como parceira. Para a gente é sempre bom estar perto delas, e para elas somos uma importante fonte de feedbacks acerca dos títulos que produzem.

DB – E a Funbox já se mantem ? Já é lucrativa?
Vanessa Santos - A Funbox se mantém e cresce  fazendo as coisas com calma. Temos projetos, a editora saiu. Tudo o que fazemos é de forma cuidadosa. Nesse ano vamos consolidar a Funbox Jogos, começando pelo Cook-Off.

DB – O que a Funbox representa para o cenário dos jogos de tabuleiro no Brasil?
Vanessa Santos - Desde o princípio, nosso objetivo é difundir os jogos de tabuleiro. Queremos fazer com que eles possam ser mais acessados, divulgar para quem ainda não conhece, e ajudar a criar esse mercado que até dois, três anos atrás era bem diferente. Então a gente começou com a locadora trazendo jogos mais acessíveis e agora trazemos a editora. Além disso, sempre fazemos palestras em faculdades, pós-graduações de jogos, etc.  O objetivo sempre é mostrar o que é esse universo, o qual a maioria das pessoas não tem idéia de que existe estamos aqui como uma força a mais para fortalecer o mercado.

DB – Como é alugar um jogo? Os jogos são devolvidos sempre bem? Como é isso?
Vanessa Santos - Nossos associados tratam muito bem os jogos, não costumamos ter problemas. Claro que já tivemos  ocasiões em que faltaram peças, mas de uma forma geral eles são  cuidadosos. Essa questão [do cuidado] fez com que a gente prefira trabalhar com adultos. Criança por exemplo não pode jogar na loja, e para levar para casa exigimos que a pessoa seja maior de idade. De qualquer forma, a maioria dos nossos jogos são em inglês e isso também forma um perfil de usuário mais restrito aos adultos. Mas o mais importante é que, quando as pessoas entram aqui são tratadas como amigos, assim como você foi. E dessa forma elas correspondem. Já não levam simplesmente um jogo da Funbox, mas dos seus amigos.

DB – Os gamers freqüentam muito a loja?
Vanessa Santos - A gente queria que o pessoal viesse mais. Gamer mesmo vem pouco. Eles já tem muitos
jogos, então para eles não interessa muito. A gente quer fazer campeonatos aqui. Acho que vai dar certo.

DB - Qual é o jogo campeão de mesa da Funbox?
Vanessa Santos - Depende do período. Havia momento momentos que nossas cinco cópias do  Arkham Horror não davam conta. Os cooperativos de maneira geral fazem muito sucesso, até porque é novidade entre os brasileiros. “Como assim todo mundo contra o tabuleiro?” (risos) . Pandemic é sempre um jogo bem cotado.

DB - As pessoas preferem jogar na loja ou levar para jogar em casa?
Vanessa Santos - Quando abrimos achamos que ia ter muito mais gente para levar para casa. Mas tem muita gente que gosta muito de jogar aqui, e passa o dia inteiro.

DB - O Crowd Funding criado para o lançamento do Cook-off está atendendo as expectativas?
Vanessa Santos - Não. Mas isso não importa, mesmo que o financiamento coletivo não atinja o montante proposto, vamos bancar o jogo e quem comprou vai receber normalmente.

DB – O Mat (tabuleiro individual) da Mirinha é um item promocional do Cook-off bem bolado e divertido, e parece que será exclusivo do financiamento coletivo. Quando a gente olha para ela, logo associamos com uma certa cozinheira famosa da TV… É isso mesmo? Como surgiu essa idéia?
Vanessa Santos - Tinhamos ido ver as peças plásticas que fazem parte do jogo. No caminho, passamos por uma revista na banca com Tia Palmirinha. Comentei com os meninos: “Sabe o que seria legal? Poderíamos homenagea-la e brincar com isso no Cook-off”. Então o Luís Francisco (designer do jogo) sugeriu: por que não fazemos um mat com ela”? Daí pedimos ao Marcelo (artista do jogo) um esboço dessa personagem exclusiva do Cook-off, ficou ótimo e surgiu a nossa “Mirinha”. Um dia descobrimos um vídeo onde o boneco da Palmirinha a ajudava a lembrar da palavra “faca”. Achamos bem engraçado, e esse detalhe completou o desenho que foi pro Tabuleiro individual.

DB - Quando o jogo será lançado?
Vanessa Santos - O financiamento termina no fim de abril, em maio a gente entra produção e em junho já estará sendo vendido, um pouco mais caro que o valor durante o período do Crowd Funding.

DB: Você  se considera gamer?
Vanessa Santos – Com o tanto que já joguei e tanto que jogo, sou sim.

DB – E dá tempo de jogar? Qual é o seu jogo preferido?
Vanessa Santos - Tenho tempo, a gente sempre arruma tempo para jogar. É comum chegar alguém aqui querendo jogar sem outras pessoas, aí a gente faz o “sacrifício” de jogar com eles, rs. Meu jogo preferido hoje é o Caylus.

DB – Pode nos contar sobre algum momento especial que tenha vivido na FUNBOX?
Vanessa Santos - Um momento que me marcou bastante foi um pouco antes de abrir a FUNBOX. Eu trabalhava fora mas havia participado da primeira parte das obras de loja, montando prateleiras, etc.  Por causa do trabalho fiquei três dias sem ir e o Wagner falou “vamos lá”, mas sem me dizer que estava tudo pronto. Quando vi tudo montado, a Funbox completamente pronta para abrir foi realmente realizador. E agora sinto que uma emoção forte assim vem aí, quando lançarmos o Cook-off.

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Arnaldo “Arnie” Carvalho, 37 anos, é terapeuta e boardgamer, criador do Niterói das Peças.

26 de abr de 2013

A experiência Funbox

Por Arnaldo V. Carvalho

Há algum tempo, soube de uma nova iniciativa no mundo dos jogos de tabuleiro chamada Funbox. Um local onde se podia jogar e alugar jogos para levar para casa. A idéia para mim não era nova: fui o primeiro sócio daquela que talvez tenha sido a primeira locadora de jogos do mundo, a Além da Imaginação em Niterói (isso foi no final dos anos 80). A notícia me fazia farejar um reflorescimento do hobby no Brasil. Mas como seria esse lugar? Seria possível jogar no próprio espaço, como já se faz em alguns poucos bares temáticos espalhados pelo país? O acervo seria variado o bastante, atual o bastante, inovador o bastante para justificar que alguém alugue ao invés de comprar?

Peguei o metrô e fui para lá tentando imaginar como pode, numa década onde os jogos online são tão disponíveis e baratos (até mesmo gratuitos), onde de fato já não se precisa da presença humana para uma partida acontecer, alguém pensar ser viável trabalhar com jogos de tabuleiro por si só, ainda mais em sistema de locação. E se ninguém mais precisa de amigos para jogar, o que sustenta essa cadeia? Eu precisava encontrar uma resposta, postulei para mim mesmo que “primeiro você precisa do jogo. Depois, dos amigos para jogar. E finalmente, precisa de um ambiente onde todos se sintam confortáveis”. Talvez   a Funbox podesse oferecer o jogo, e quem sabe, o ambiente para os amigos.

Cheguei lá por volta das 17h, após cinco minutos caminhando em declive (no sobe e desce das ruas de São Paulo sempre ficamos felizes quando o percurso é de descida) a partir da saída do metrô. Tranquilo. A pequena lojinha, instalada em uma galeria antiga e calma, parecia a Disneylandia de qualquer gamer. Paredes preenchidas de jogos e mais jogos, muito novos. Os toplist da BGG, da Ilha do Tabuleiro, e demais comunidades gamers, todos lá. Algumas preciosidades out-of-print.  E um balcão oferecendo pequenos belisquetes, bebidas e infra-estrutura de atendimento para os aportados na loja. E há um ótimo espaço com mesas de jogo que podem ser unidas para fazer mesas gigantes, como a que fizemos momentos após a minha chegada.

Perto do balcão, um painel anunciava as condições de aluguel e uso dos jogos. Fiz umas contas rápidas: um jogo de tabuleiro de alto nível hoje em dia custa por volta de R$250,00. Um jogo. Agora, imagine que por menos de cem reais você pode ter em sua casa o título que quiser, pode jogar todos os grandes títulos do mercado. Você não precisa se preocupar em passar um jogo adiante se enjoar, não precisa se preocupar com sua conservação para além do tempo em que estiver com ele. Não precisa ficar preenchendo formulários de compra com cartão de crédito internacional, não precisa mais esperar, por vezes, meses para a chegada de um jogo, que pode no final te reservar uma taxação de impostos espúria. Sua imensa coleção agora não ocupa qualquer espaço: ela é a própria Funbox. E os jogos já não pegam poeira, são muito mais jogados e curtidos, como qualquer personagem do Toy Story sabe ser o ideal de um jogo ou brinquedo. Jogo parado é jogo morto. Quatro jogos novos? Com esse dinheiro eu pago um ano inteiro de Funbox, experimento a vontade e me divirto muito mais! Que vontade me deu morar 480 quilômetros mais próximo da Funbox!


Para além de espaço físico e acervo, minha maior preocupação quando entro em um estabelecimento comercial é sempre a qualidade de atendimento; e confesso que a Funbox me surpreendeu. Mal cheguei, e lá estava a proprietária Vanessa Santos e seu fiel escudeiro e Acessor para Assuntos nada Aleatórios Massaoka, prontos para me receber, o que ocorreu com grande alegria. Eles me apresentaram a todos os presentes da loja: Jo Nobrega (de Brasília, coincidentemente turistando pela Funbox no mesmo dia que eu!), Jorge Fugimoto, Rafael Faria, o designer de Cook-off Luís Francisco Baroni, e o genial Higa. Ambiente bem humorado, pessoas inteligentes e bacanas, chegando mais e mais. Primeiro o Alexandre “Monstro” AC, depois Gustavo “Aero” Barreto, depois Jaime Fernando, entre outros! 

O Gustavo me concedeu uma entrevista logo após me apresentar o Aero e o protótipo do card game que a Hidra Games irá lançar esse ano (detalhes na minha entrevista com Gustavo Barreto, publicada no Desbussolados). 

Com doze pessoas rindo e dispostas a permanecerem juntas, a decisão de jogo óbvia era filler, joguinhos despretenciosos para dar risada. Começamos com Werewolf, e mais uma vez a Funbox incrementou. Vanessa ofereceu a todos os jogadores “capas” com capuz ao melhor estilo “Villager” (ou chapeuzinho vermelho, quem sabe),  e o jogo foi disputado com um clima lúdico a mais. Desse passamos para o Dixit, que com doze pessoas esquentou bastante! 



Mas quando se está entre bons amigos, a hora passa rápido, e logo chegou a hora de fechar a loja. Ninguém sentiu o tempo passar, e o clima fraterno não permitiria a mera dispersão. O grupo então decidiu seguir junto para uma pizza próxima, aliás, pedida perfeita pós-Funbox.  E lá fomos pelas ruas, conversas sobre o mundo do jogo, sobre a vida. “o pessoal da Redomanet foi?” “por que há mais homens do que mulheres que curtem jogos de tabuleiro?”, “quando é que o Luís vai resolver requerer seus direitos no lançamento do Mehinaku”? “E o Cook-off”? “já jogou aquela expansão nova do Dominion”? “já mora há muito tempo aqui?” “Quem tem o…?” “o Star Trek Building Deck é bom assim”? “Li aquela resenha no Desbussolados”! 

Pizzas diversas, bom humor e mais conversa livre, o encontro foi concluído com chave de ouro. De lá para a rodoviária, segui de volta para o RJ com a sensação de que havia feito novos amigos, com quem poderei compartilhar sempre muitos momentos memoráveis.

E assim, a Funbox me fez entender que a ordem que eu propunha jogo> amigo>ambiente era no mínimo
obsoleta. Primeiro você precisa é de amigos. Depois você precisa de uma ferramenta de interação. E finalmente, você precisa de um ambiente onde essa interação possa ocorrer de maneira fluída. É justamente a facilidade de se jogar os jogos, a banalização do acesso, que faz a gente de repente perceber que o forte do jogar está nas pessoas. São as pessoas, o calor humano, a interação que fazem alguém continuar preferindo os jogos físicos aos virtuais. E isso me foi provado repetidamente em cada hora que se passou dentro da Funbox, pois é isto mesmo o que a “Caixa da diversão” Funbox tem a oferecer. 

Pois é, do que soube da abertura da Funbox até aqui, precisei guardar minha curiosidade por cerca de três anos, e parece que cheguei por lá na hora certa. A visita a Funbox me fez ver que ela preenchia todas as minhas expectativas, com sobras. Para além de um acervo de primeira, eles tinham aquilo que faz você ficar: pessoas especiais.

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Arnaldo “Arnie” Carvalho, 37 anos, é terapeuta e boardgamer, criador do Niterói das Peças.

21 de abr de 2013

[Financiamento Coletivo] Cook-off

Por que eu financiei o Cook-off

Por Arnaldo V. Carvalho

Há algumas semanas atrás ajudei um jogo de cartas a ser lançado no mercado. O jogo é uma brincadeira que gira em torno de um concurso fictício de culinária onde participam chefs caricatos e trapaceiros. Os jogadores montam suas receitas e sabotam as receitas alheias.



O jogo é belo, irônico, divertido, interativo – um belo presente para um amigo gourmet ou gourmand, para uma família que gosta de estar junto, ou quem sabe um conhecido que pretende fazer uma viagem de trem pela Itália ou outro centro gastronômico mundial. Um jogo a casar com uma boa tábua de queijos e um vinho de qualidade junto a bons amigos. Uma brincadeira a envolver o avô, os tios e sogros com os pais dos bebês que dormem no carrinho próximo aos sofás da sala onde todos riem.

Todavia, os amantes de jogos de tabuleiro – que movimentam um crescente mercado voltado a um exigente público adulto de média-alta condição socioeconômica - parecem não ter se empolgado em promover o lançamento do Cook-Off. Acredito que o tema (culinária) e o perfil levíssimo (filler) do jogo não favoreceu. E assim, até o fechamento desta matéria, o financiamento coletivo ainda estava longe de atingir sua meta.

Naturalmente, a Funbox está aprendendo muito com essa primeira iniciativa, e talvez o grande equívoco relacionado ao marketing de captação seja a estratégia de divulgação. Minha percepção é que ela se restringe demais aos nichos gamers, e os gamers querem jogos mais estratégicos, querem jogos mais euro, e querem Best-sellers. Até certa medida, o Cook-off ainda foi “atrapalhado” por esse meio ao ser promovido quase junto ao lançamento da versão nacional do Munchkin, com quem compartilha algumas características (divertida troca de implicâncias entre os jogadores). E finalmente, há a concorrência por patrocínio, onde disputam diversos títulos nacionais e internacionais que visam ser publicados através do sistema de crowd funding.

Se fosse um gamer típico, também não sei se curtiria tanto o tema do jogo. Possivelmente, não investiria o valor estimado (cerca de R$75,00) no Cook-off se o encontrasse numa prateleira da Ri Happy ou a venda no Mercado Livre. Mas acho que há bons motivos para a comunidade inteira participar do financiamento coletivo do primeiro jogo da Funbox.

Primeiro que prestigia o jogo nacional de qualidade – e disso ninguém duvida, a arte é primorosa e estou certo de que o acabamento dos componentes seguirá essa linha. Segundo que o financiamento pode ser até mesmo de R$5,00, o que não mata ninguém. Terceiro, colabora para o nascimento de uma nova fabricante de jogos que se somará a Galápagos e Devir e como a fornecedora de jogos com qualidade internacional oferecidos – a Funbox.

É bom frisar que outros financiamentos coletivos de jogos nacionais, alguns bastante interessantes por sinal, são medidas igualmente apoiáveis. Mas são iniciativas independentes, e não lançamentos capaz de alavancar outros, feitos por uma empresa com planejamento de lançamentos sistemáticos em longo prazo. Cook-off não é o sonho de uma pessoa que quis ver seu jogo publicado, mas o sonho de um grupo que quer oferecer a chance de ver muitos desses sonhos publicados.

Reclamamos tanto e durante tantos anos do parco desenvolvimento do mercado nacional, e quando ele finalmente lança suas sementes, não oferecemos a cobertura necessária para ele vingar no solo brasileiro.

Nos jogos, como nos livros e filmes, parece que o brasileiro tem preconceito contra si mesmo. Prefere sempre o importado, seus olhos se acostumaram a acreditar que o que vem de fora é sempre melhor. Sabemos que não é assim. Vejo isso no Recicle, que é sempre bem comentado mas nunca jogado. O primoroso trabalho de Luish felizmente soube ser vendido, aproveitando o tema e participando de campanhas de interesse público. Mas os amantes de jogos mesmo são monótonos: “o jogo é muito bom”. E lá fica ele na prateleira.

Em alguns meses, eu terei  o orgulho de receber a caixa autografada do Cook-off. Financiei o primeiro do que será uma grande (em qualidade e quiçá quantidade) coleção de jogos a ser disponibilizada pela Funbox no próximo ano. E possivelmente, vez por outra, olharei para a estimada caixinha e pensarei: “O primeiro Funbox game a gente nunca esquece”.

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Site do financiamento: http://funbox.com.br/thecookoff/
Término: 27/04/13
Designer : Luis Francisco
Artista: Marcelo Bissoli e Luis Francisco
Publisher: FunBox Jogos
Nº de jogadores: 4 a 6
Duração: 40 minutos
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Arnie Carvalho é um Polímata dedicado ao maravilhoso engenho do Homo ludens.